FACE A FACE COM CRISTO
O incontrolável anseio de criar uma exata fisionomia de Jesus, denuncia a profunda necessidade humana de conhecê-lo sob sua forma corporal. Qual tipo físico encarnou na Terra? Era alto, baixo, moreno, esguio? E quanto a cor de seus olhos? Eram azuis? castanhos? esverdeados? Queremos saber. Os sentidos reclamam sua incorporação.
A engenharia genética e a antropologia comparada, de mãos dadas às outras ciências, concentram seus esforços na tentativa de aproximar-se cada vez mais da realidade material de Jesus e de sua desconhecida face. Essa secreta fisionomia exerce, ainda hoje, um poderoso fascínio entre os povos das mais distintas religiões e carrega consigo um forte apelo emocional...
Tal busca é legítima porque o coração humano não ama apenas na profundidade do espírito. Há sempre a básica necessidade de vê, tocar, sentir na pele as pessoas que estimamos. E isso, por um simples motivo: conhecemos o mundo e a realidade das coisas através da corporalidade. Um consagrado estudo de Esther Bick nos ensina que é da pele que nasce a primeira identidade do “eu”.
A fisicalidade nos faz existir para os olhos. Estes extraordinários órgãos que como espelho da alma refletem o íntimo de cada um de nós. Também apreendem o mundo que nos afeta de fora, apropriando-se do objeto fitado na mais pura cumplicidade com ele. Os olhos são os principais responsáveis pelo profundo sentimento de admiração e alegria que a natureza e sua inefável beleza promovem em cada ser humano. Contemplar cada coisa na delicadeza de sua existência é, de certa maneira, conhecê-la na intimidade.
Leonardo da Vinci, em seu tempo, via os olhos como a janela da alma e espelho do mundo:
“Não vês que o olho abraça a beleza do mundo inteiro?... É a janela do corpo humano por onde a alma especula e frui a beleza do mundo, aceitando a prisão do corpo que, sem esse poder, seria um tormento... Quem acreditaria que um espaço tão reduzido seria capaz de absorver as imagens do universo?”
É poesia de rara beleza. Mas ele não esta sozinho. A reflexão paulina sobre o olhar é uma promessa. Um dia, no futuro, conheceremos o rosto sagrado hoje buscado pela ciência, face a face. Então não haverá mais nenhuma falta, e um mundo de felicidade se erguerá, para sempre.
Estou convencido de que nenhum outro anseio é mais radical na espécie humana do que o desejo de estar frente a frente com Deus, vivendo na plenitude do amor.
É essa a motivação inconsciente que move os pesquisadores a buscarem o rosto santo de Jesus, filho de Deus e Deus mesmo em pessoa! Deseja-se antecipar esse dia sonhado e querido. Oxalá uma fotografia tenha a força de saciar, ainda que parcialmente, a fome e sede do Absoluto que habita o nosso profundo.
A ESPIRITUALIDADE DA FISICALIDADE
Toda tradição psicológica sabe que a maioria dos conflitos que geram neuroses tem seu fundamento na falta de amor e ternura que o indivíduo não conheceu na sua infância. Não há ninguém sobre a terra que possa dispensar a bem-aventurada experiência do calor humano, sem perturbar-se gravemente.
Uma imagem mais que perfeita: o afago da mãe abraçada ao seu bebê. Os olhos daquela frágil criatura fitando o rosto de amor que lhe alimenta, é uma lembrança jamais esquecida em toda a sua vida. Determinará suas escolhas afetivas futuras e suas possibilidades de felicidade. Pesquisas como a de René Spitz chegam a demonstrar que o efeito do batimento cardíaco da mãe sobre o corpo do filho durante a amamentação é vivenciado por ele como afago, carinho e proteção.
Uma memória corporal será construída a partir destes encontros, entre ele e ela. Tais exemplos demonstram a radicalidade da fisicalidade. Abraçar, tocar, beijar, afagar e olhar... eis ai experiências humanas decisivas para o nascimento da vida emocional. Nada é mais fisionômico em nossa espécie do que esta disposição de carinho que se viabiliza através dos gestos e do olhar.
SAUDADE DE DEUS
É nesse sentido que se devem entender os esforços em desenhar um rosto fiel de Jesus. Deparar-se face a face com o Messias é, de certa forma, consolar a falta que nos faz e que deixou no mundo com sua partida. Obviamente tal nostalgia não será estancada e, inversamente ao desejado, a trabalhosa fotografia buscada aguçará ainda mais nossos anseios ao invés de aplacá-los. Seria necessária uma séria reflexão sobre a função mágica da fotografia para entendermos um pouco das motivações inconscientes que estimulam tal busca. Mas há algo que se pode dizer dela, sem que isto seja uma mágoa aos que amam fotografar: nenhuma fotografia pode realizar sua pretensão de parar o tempo, ainda que tenha força para nos remeter de volta ao momento nostálgico de alegria ou tristeza...
OLHAR COM OS OLHOS E SENTIR COM O CORAÇÃO
Mas qual seria o verdadeiro rosto de Cristo? E o que esse rosto construído por nossos impecáveis computadores tem a dizer sobre as inevitáveis armadilhas que os nossos olhos constroem para si?
Há duas passagens nos Evangelhos que elucidam nossas perguntas. O misterioso rosto de Jesus encontra-se em cada fisionomia humana. É o pobre, o rico, o necessitado, o enfermo, o menino de rua, a prostituta, o empresário... Todos são rostos deste infinito Rosto. Cada alma socorrida, cada vida salva, cada voz que se levanta cantando a fraternidade entre os seres humanos, ai se realiza a verdadeira fisionomia divina de Cristo e a saudade que nos faz é, pelo amor ao próximo, saciada.
Os olhos e suas inevitáveis ilusões... Lembremos da antológica passagem do encontro de Jesus com Tomé. Tal momento é de extraordinária beleza. Tomé era o cientista da época! Queria provas do que não podia ser provado. Acreditava que o mundo só pode ser captado pela razão. Era um espírito científico fino, de inestimável importância. Jesus não o reprovou por isso. Mas lhe convidou a experimentar uma outra ótica. Diversa da habitual. É como se dissesse: “menos os olhos Tomé e mais o coração!”
Limitado aos cinco sentidos foi incapaz de perceber que havia um sexto. Um sexto sentido. E ai está o ponto central que nos desafia. Conhecer o rosto de Cristo é conhecê-lo, por assim dizer, pelo sexto sentido, a saber: através do coração. Coração é simultaneamente um órgão do corpo e um estado poético da alma. Evidencia uma consciência alterada que nos faz ver o invisível.
São Tomás de Aquino tem uma frase que exibe a profundidade de suas meditações sobre a divindade. Ele disse: “Se Deus existe como as coisas existem, Deus não existe!” É uma intuição perfeita. Deus não pode ser captado nem pela razão, nem pelo intelecto e por um bom motivo: Ele não existe à moda que entendemos a existência de algo. Sei que uma cadeira existe pelo fato de estar sentado nela. É um fato! Todas as pessoas que me fitarem, poderão concluir em uníssono: ele está sentado numa cadeira! Mas como posso dizer que Deus existe se não posso apontar nesta ou naquela direção e afirmar: alí esta Deus? Então, Deus é fé? Sim, e um tipo especial de fé. Uma fé que vê, que sente, que sabe! A mesma fé do primeiro astronauta que pisou na lua, quando, tomado por uma comoção interior ao olhar a Terra da lá, ajoelhou-se e convenceu-se que o que assistia não poderia ser obra do acaso. Esta experiência é saber de Deus, é conhecê-Lo no sentido pessoal...
O ROSTO DO AMOR
Se há uma fisionomia que é a cara de Cristo, certamente não é a que brota dos sofisticados computadores de pesquisas;pouco menos aquela que nasce do devaneio da imaginação humana. O rosto exato de Cristo é o rosto do amor, seja ele amor-eros, amor-phyllia, amor-ágape. Onde quer que se pratique o amor, o véu dos anos que nos separam da figura histórica do homem que nasceu em Nazaré é abolido, e, como se fosse mágica, meu próprio rosto assume as características da face desejada. Torno-me ele, e ele, eu. Uma alquimia se faz entre nós. Um casamento. Alma a alma. Corpo a corpo. O puro e o impuro, o santo e o pecador, o sagrado e o profano. Mergulhando em mim e imerso no amor, encontro não a mim, mas Ele. Quando praticamos o amor e suas virtudes íntimas resplandece em nosso rosto a face eterna de Deus.
by JRGOMES at 2:21 pm
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