RESPOSTA A UM PSICANALISTA
A TENTAÇÃO DO SABER
por José Raimundo Gomes
1.Querido Senhor X, obrigado por seu comentário. Meditei sobre ele e, como amo a verdade e, em especial, a verdade que eclode de dentro de mim, responderei ás suas colocações segundo este critério tão caro a mim e a psicanálise.
2.E é por esta motivo que começo a minha exposição utilizando a mesma cuidadosa locução utilizada por você em seu comentário, a saber: "respeitosamente"... E é de forma respeitosa que me dirijo a você.
3.Como "sou junguiano", os fenômenos premonitórios não me são absolutamente estranhos, logo, quando escrevi a palavra " salvou", já sabia de antemão que os fervorosos devotos de Freud ficariam enfurecidos e que procurariam disfarçar sua ira, utilizando-se de uma linguagem aparentemente rebuscada que indicasse saber, conhecimento, rigor intelectual, essas coisas tolas que são os recursos defensivos utilizados por aqueles que padecem de uma forma de conhecer chamada por Bion de "conhecer onisciente".
4.O "conhecer onisciente" é aquele que não deriva da reflexão, da introspecção. É um conhecimento "automático", uma "equação simbólica", diria H. Segall. O "conhecer onisciente" é uma espécie de proto-pensamento, uma equivalente dos arquétipos de Jung. É um conhecimento sem vivência, autista, um conhecimento primitivo.
5.A psicanalista Margareth Mahler (v. O Nacimento Psicológico da Criança) nos sugere um modelo de desenvolvimento do ego, onde entende a fase simbiótica normal do bebê como um momento em que este, nada pode experimentar do seu próprio Self e o evacua, por Identificação Projetiva, (cisão, Melanie Klein) para dentro da mãe. Estas sementes de pensamentos (Bion chega a falar de ideogramas, para o horror dos próprios Bionianos)não podem ser pensados, e isto porque o aparelho mental do bebê não encontra-se equipado para suportar esses pensamentos e pensá-los, pois é ainda incipiente. Dito de outra forma: o neném precisa do aparelho mental da mãe para ajudá-lo a construir o dele.
6.Mas o maravilhoso desse processo não se restringe aos pensamentos que foram "mastigados" pela boa mãe e oferecido ao filho como nutridores essenciais ao seu desenvolvimento mental. O espantoso é que junto com essa deliciosa "sopinha de letras" ingerida pelo bebê, há um caldo cujo tempêro tem o sabor denominado FUNÇÃO! Dito de outra forma: quando o bebê ingere a comida, ingere também o caldo, onde a comida é entendida como a transformação da angústia do bebê em "pensamentos comestíveis" e o caldo representa a FUNÇÃO que faz a mente movimentar-se, tendo ela agora a capacidade de processar e transformar angústia em pensamento. Alimentando-se da comida e do caldo o neném cada vez mais, menos necessitar da mãe como aquela que come as suas angústias , sintetiza-a e a devolve sob a forma de um significado, porque agora possui dentro de si a funçao que transforma angústia em pensamento.
7.Em pouco tempo, quando o neném fica grandinho, ele passa a pensar por ele mesmo. Essa mudança é de fundamental importância para que se torne um indivíduo centrado nele mesmo, tornando-se independente da matriz indiferenciada de onde se originou, a mônada urobórica. (Erich Neumann A Origem da Consciência).
8.Veja, o neném precisa de algum grau de coragem para suportar o medo fantasiado de uma possível retaliação (lembrança da fase anterior, descrita como Posição Esquizo-Paranóide) pois acredita que se discordar da mãe (no caso em questão é do Pai-Freud, por quem os filhotes nutrem desejos hostis e incestuoso, homo e heterosexual) será atacado. Ele ainda nao percebe que é a sua própria agressividade empurrada para dentro do objeto, que lhe ameaça. A resolução desse doloroso processo é levado adiante no bojo de uma fase que Klein chamou de Posição Depressiva.
9. Neste vai e vém de conceituaçōes, temos que a mãe precisa ser "suficientemente boa", ter "holding" (saber segurar seu bebê), como diz a "mamãe" Winnicott. Essa mãe precisa ter capacidade de "REVERIE", ser um "CONTINENTE" bom para receber os conteúdos psíquicos brutos, transformado-os em pensamentos palatáveis, ter "APEGO" amoroso para viver essas terríveis experiências apoiando o seu bebê (John Bolwby),ajudando-o a superar a angustiante pulsão de morte, cuja descrição não se deve a Freud mas a Sabina Spielrein, a amante de Jung que posteriormente se tornou freudiana...(v. Um Método Muito Perigoso, John Kerr (o livro virou filme) e Diário de Uma Secreta Simetria, Aldo Carotenuto. V. também minha entrevista com Aldo Carotenuto realizada em Roma e publicada na Revista Cultura, da Editora Vozes)
10. Mas o que tudo isso tem a ver com a ab-reação do Senhor X á minha humilde declaração amorosa ao meu ex-analista, tentando estragar os meus bons sentimentos transferenciais, resíduos de um tempo de estudante que nem mais saberia datar? Para mim, tem tudo a ver. Estragar coisas boas é igualmente uma característica dos bebês invejosos cuja PULSÃO EPISTEMOFÍLICA tem por objetivo a curiosidade mas também o desejo de destruir o objeto admirado e invejado, simultâneamente. Esses rebentos quando ficam irritados gostam de urinar e defecar nas mãos de sua devotadas mães ("mamãe" Winnicott, de novo)e fazem isso alucinando.
11.Reza a lenda de que esses bebes nascem assim e parecem ser incorrigíveis, mesmo á psicanalise mais severa ( v os trabalhos de Otto Kernberg sobre Agressão e Transtorno de Personalidade Borderline. eDITORA ArtMed).
12.Com todo respeito, o EXIBICIONISMO GRANDIOSO (H. Kohut) do Senhor X, encontra-se na hipersensibilidade reativa a certas palavras chaves.Tais palavras nunca podem ser pronunciadas impunemente diante do fundamentalismo freudiano. O infiel que ouse recitá-las pode ser punido com a marginalização, com a ridicularização, com a desconfiança e com a suspeita de que não leu o suficiente e, entenda-se, não leu o suficiente como não tendo lido os textos sagrados da religião freudiana, qual seja, suas obras completas. Esse é o motivo que faz O Senhor X, dono do saber (e aqui não há lugar para o "suposto saber", pois não se trata de um saber relativo mas de um saber primitivo, onisciente) me indicar os Seminários do histriônico Lacan, e um ou outro texto do mestre Freud, sem ao menos me perguntar se eu já os havia lido. É que o Senhor X, na qualidade de filho edipico do Papai Freud, deduziu de minha inofensiva declaração amorosa, que eu estava completamente desinformado SOBRE O QUE É REALMENTE A TRANSFERÊNCIA. Um horror...
13.Lembremos, quando postei a pergunta-instigante, para usar a expressão de minha amiga Y: "afinal, qual é o problema dos psicanalistas com a Religião?" Essa assombrosa palavra-estimulo (Religião) perturbou de tal forma algumas pessoas que fez com que muitas delas substituissem, por conta própria, é claro, a palavra "psicanalistas por Freud"!
14.Meu Deus, se tem uma coisa que não se parece em nada com a intuição do mestre de Viena, essa coisa, em geral, são os Psicanalistas. Eles formam um bando, uma horda que defendem o Pai, ainda que este Pai não queira nem necesite de defesa! Fazem isso não porque amam esse Pai, e querem colaborar na construção do edifício cuja pedra angular fora lançada por ele, no século XIX. Não se trata de querer trabalhar como pedreiros na construção da arquitetura da mente humana e não aceitam esse trabalho humilde porque não gostam de carregar peso, assumir a responsabilidade de pensar por si mesmos, nao querem crescer, não querem se dar ao trabalho de meditar, ter opinião própria. Eles odeiam tudo que não seja proteção e se oferecem como guardiōes da palavra do Pai porque eles mesmos não são capazes de construir palavras para falar. Vivem repetindo e imitando o que o papai falou, por pura preguiça de pensar, de criar.
15.De forma agressiva, atacam qualquer um que ouse fustigar seu calcanhar de Aquiles e os obrigue a aplicar a eles mesmos, a psicanálise que apreciam aplicar nos outros. Refugiados em abrigos psiqucos de poder (v. Refúgios Psiquicos. John Steiner) exibem-se como personalidades maduras frente a seus pacientes ao mesmo tempo que mantém um doloroso infantilismo diante do Pai adorado... um infatilismo cheio de agressividade disfarçada...Lembro como o meu amigo Eduardo Mascarenhas e Hélio Pellegrino foram jogados na fogueira pelas próprias instituiçōes psicanaliticas que representavam, quando decidiram denunciar as práticas autoritárias e hipócritas da SPRJ, práticas essas que vinham justificadas pela "técnica", essa coisa que só os psicanalistas sabem o que é.
16.Se aplicássemos a lógica do Totem e Tabu ás instituições psicanalíticas o que encontraríamos? Provavelmente, muito pouco do espírito de Freud (v Freud e a Alma de B. Bethelheim) mas muito de um grupo de meninos selvagens, com "bilaus" não circuncisados, possuídos por um ódio mortal ao Pai, mas negado, e dispostos a praticar uma imediata inssurreição contra ele, caso os obrigue a circuncisar-se, em outras palavras: caso o Pai os obrigue a virar homens e assumir suas vidas, longe de sua proteção. Estes parricidas, jamais entronizam o falo pois para isso teriam que se livrar do Pai mas se livrar do Pai significa tornar-se pai, tornar-se co-criador, co-construtor, pedreiro, lapidador, ourives, oleiro.... Mas isso dá trabalho...
17.Senhor X, com todo respeito, embora pareça religioso (sou católico) não sou o tipo de pessoa que ajoelha diante de obra alguma. De tudo que conheço do ser humano, começando por mim mesmo, sei muito bem que nenhum de nós é merecedor de culto. Aprecio ler, acho esses homens incríveis, eles tambem salvaram a minha vida, mas aprecio ainda mais pensar por mim mesmo, comparar, considerar, sem tomar nenhum pensamento, nem meu nem do outro, como o pensar absoluto. Todos os livros do mundo reunidos não são nada em constraste com a riqueza da alma humana. E a alma humana é infinita portanto, ninguém é dono DA PALAVRA, dono da verdade. Citar bibliografia (como fiz acima), tudo isso é uma grande bobagem..Todo esse barulho não é nada, perto do silêncio, da escuta sensível da alma.
18.Querido Senhor X, não quis exatamente puxar a sua orelha, mas quis, sim, puxar a orelha desse tipo de saber sem alma costumeiramente encontrado nas instituiçōes psicanalíticas, instituiçoes essas que se sentem como portadores da palavra oficial de Freud, homem extraordinário, cuja importância maior foi ter nos mostrado uma vida psiquica que não imaginávamos existir e, ao fazer isso, nos libertou de nossas mentiras, de nossos medos, de nossos recalques, obrigando-nos a nos tornar aquilo que verdadeiramente somos. Não podemos perder esse essencial de vista, se não nos tornaremos caçadores de hereges, como os inquisodores medievais.
19.Citei um sem números de autores, exercitei o meu próprio exibicionismo grandioso com o intuito de acalmar a minha ferida narcisica impiedosamente esgravatada por você ( mesmo que diga não ter tido a intensão) e, me pergunto, o que afinal estou fazendo? O que tudo isso significa? Sinceramente? Não sei. E mesmo sem saber, o fiz. Não acho que tenha muita importância, portanto não se magoe comigo.
20.Sei que pareço um homem religioso (salvação, Religião, Deus, uso frequentemente essas palávras apócrifas...) e talvez o seja mas, se de fato sou uma criatura religiosa, então sou um religioso sem religião, sem igreja, sem ter nada a dizer, sem ter nada a defender, sem qualquer certeza, sem nada crer, sem nada professar, Sim, a única coisa a que me sinto realmente ligado é ao espanto, á perplexidade de estar aqui, agora, nesse exato momento. Sinto gratidão por isso. Todo resto me parece dispensável, exceto um bom chopp sob o sol escaldante em uma praia carioca.

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